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Star Wars e a advocacia

Anderson Schreiber

Anderson Schreiber

17/04/2026

1. Nota prévia

          Não é preciso ser um jedi para compreender Star Wars… mas ajuda. Em toda a história do cinema, nenhuma obra foi objeto de tantos livros, análises, resenhas, especulações. Tentar examinar tudo que já foi escrito ou produzido sobre o tema seria uma tarefa quase tão insana quanto navegar a bordo da sua Millenium Falcon através de um cinturão de asteroides. Pior: trata-se de uma obra cinematográfica inacabada, que continua a se transformar e ainda promete novas revelações. Em suma, Star Wars não é um filme, nem um mero conjunto de filmes, mas uma autêntica saga iniciada há mais de quarenta anos e que se encontra, ainda hoje, em busca de uma conclusão digna do absoluto encantamento que os primeiros filmes da série produziram sobre diferentes gerações de fãs.[1]

          O primeiro filme, intitulado simplesmente Star Wars e rebatizado alguns anos mais tarde para Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança, estreou em 1977, mas só seria exibido no Brasil no ano seguinte. Seu impacto foi fulminante por toda parte. Tornou-se, rapidamente, o filme de maior bilheteria de todos os tempos.[2] Relatos da época mostram que o diretor, George Lucas, pretendia criar uma espécie de faroeste espacial, mas, ao longo das filmagens, a coisa parecia ter tomado vida própria. Além dos executivos dos estúdios da Twentieth Century Fox, grande parte da equipe de filmagem achava que Lucas havia perdido o controle e que o filme seria um fracasso colossal. Os próprios atores tinham sérias dúvidas quanto ao resultado das filmagens. Harrison Ford chegou a afirmar: “Havia esse cara gigante vestido em uma fantasia de cachorro andando pelo set. Era ridículo”.[3] O sucesso do filme surpreendeu a todos e deu início a um épico cinematográfico.

          Viriam, então, em 1980, O Império Contra-Ataca e, em 1983, O Retorno de Jedi – filme que se chamava A Vingança do Jedi até as vésperas da estreia, quando Lucas decidiu mudar o título do filme, inutilizando todo o material publicitário já produzido, porque concluiu que a vingança não era um sentimento permitido para um jedi.[4] Seguiram-se quinze anos de hiato até a chegada da segunda trilogia (1999-2005), que, em termos de roteiro, é, na verdade, a primeira, e mais dez anos de espera se passaram até o início da terceira trilogia (2015-…), que é a terceira mesmo, de tal maneira que, ainda hoje, quando alguém se refere aos filmes pelo número do “episódio”, os menos aficionados precisam fazer contas nos dedos para saber exatamente do que se está falando.

          Neste exato momento, enquanto escrevo, o último filme da terceira trilogia está sendo produzido e os cinemas anunciam para este ano a estreia de Han Solo, uma espécie de “spin off” sobre a juventude do contrabandista mais famoso da galáxia, obra que se soma a Rogue One no rol de filmes que, sem integrar as trilogias, compõem essa rica e complexa trama. Trata-se, como se vê, de um genuíno mosaico cinematográfico, sem mencionar os livros, histórias em quadrinho e desenhos animados que compõem o chamado “universo expandido” de Star Wars.

          Mesmo assim, quando José Roberto de Castro Neves me pediu que escolhesse um filme para retratar sob lentes jurídicas em sua nova coletânea, ouvi uma voz que sussurrava em minha mente: – Star Wars… Conhecedor de todas as dificuldades de mexer com algo que é considerado muito sério para os seus fanáticos adoradores, decidi, ainda assim, que valia à pena tentar. Foi quando um esquecido Yoda saiu de trás de algum canto da minha infância e me advertiu com ar severo: “Try not. Do or do not. There is no try.”[5]

2. Interpretação, advocacia e Star Wars

        Todo advogado é, em essência, um intérprete. Seu trabalho consiste em interpretar as normas jurídicas, enxergando-as sob diferentes pontos-de-vista, na esperança de entender inteiramente o seu sentido. O advogado interpreta também os fatos, observando-os sob as mais diversas perspectivas, sempre no afã de alcançar a compreensão mais ampla possível dos acontecimentos. Nesse processo dialético que se trava na mente do advogado, a interpretação da norma (geral e abstrata) e a interpretação do fato (particular e concreto) conjugam-se para que ele alcance a solução justa para o seu caso à luz do Direito.

        Um dos segredos do sucesso universal de Star Wars reside exatamente no fato de permitir uma infinidade de interpretações. Há quem enxergue ali a história permanente de uma relação entre pais e filhos. Tal vínculo revela-se explicitamente entre Luke e Darth Vader na primeira trilogia (vader é a palavra holandesa para pai),[6] mas pode ser vislumbrada também nas demais sequências, de modo literal, como ocorre entre Kylo Ren e Han Solo no Episódio VII, ou de modo mais implícito ou simbólico, como ocorre nas relações entre discípulos e mestres ao longo da trama (pense-se na relação entre Obi-Wan e Qui-Gon Jinn no Episódio I ou, ainda, na relação entre Anakin e Obi-Wan ao longo dos Episódios II e III, não sendo de se desprezar aí a figura do Chanceler Palpatine que disputa com Obi-Wan a paternidade simbólica do jovem jedi). A bem da verdade, a terceira e última trilogia parece destinada a se libertar desse padrão, promovendo o repentino assassinato de Han Solo pelo próprio filho já no Episódio VII (ainda não inteiramente superada por este que vos escreve) e exibindo, no Episódio VIII, um frustrante diálogo entre Kylo Ren e Rey, segundo o qual Rey não seria filha de Luke – como diferentes cenas do filme anterior chegam a sugerir –, nem de nenhum outro personagem da série. Seus pais “não eram ninguém”:

Kylo: – Você sabe a verdade sobre seus pais? Ou sempre soube? Você apenas escondeu isso… Diga.

Rey: – Eles não eram ninguém.

Kylo: – Eles eram comerciantes de lixo imundos. Eles te venderam por dinheiro para beber. Eles estão mortos em um túmulo de mendigos no deserto de Jakku. Você vem do nada. Você é ninguém… Mas não para mim.

        Tanto este diálogo quanto o assassinato de Han Solo parecem ter sido escancaradamente desenhados para romper com (ou interromper) o drama paterno-filial das trilogias anteriores – o que pode ter sido planejado como atrativo para o público atual, supostamente mais afeto a heróis anônimos que a “herdeiros” de antigas linhagens, mas se mostra, de resto, muito consistente com a compra dos direitos de Star Wars pelos estúdios Disney, cujos grandes sucessos retratam historicamente as desventuras de jovens órfãos ou que perdem, ao menos, um de seus pais logo nos primeiros minutos de filme.[7] Nada obstante, o parricídio cometido por Kylo Ren e a revelação de inexistência de uma relação de paternidade entre Luke e Rey (revelação sobre a qual ainda paira alguma suspeita), ao mesmo tempo em que representam alguma ruptura da trama centrada sobre pais e filhos, acaba, na verdade, por reforçar essa ideia, ainda que para negá-la.

        A exemplo do que ocorre em toda relação entre pais e filhos, há em Star Wars uma mútua e permanente incompreensão entre ascendentes e descendentes, entre as diferentes gerações que se sucedem, incompreensão que (como, por vezes, ocorre na vida real) não se resolve em conversas nos divãs, mas em duelos de sabres de luz, com mutilações e feridas que, em muitos casos, se carregam por toda a vida. Star Wars exibe, para quem quiser ver, a teimosa impermeabilidade dos pais às novas ideias e a incendiária rebeldia dos filhos (biológicos, adotivos ou socioafetivos), com suas certezas e seguranças recém-descobertas. Tratar-se-ia, assim, de uma longa trama sobre a dificuldade da relação entre pais e filhos, tese reforçada pela trajetória pessoal do seu criador, George Lucas, ele próprio um rebelde que teve de enfrentar o pai, um empresário de extrema direita, para seguir carreira naquilo que George Sênior denominava de “the damn movie business”.[8] Para muitos, Lucas teria retratado sua própria trajetória na primeira trilogia e a semelhança nominal com o protagonista (Luke) estaria longe de representar mera coincidência.[9]

        Há, todavia, outras interpretações possíveis. Não é raro, por exemplo, que Star Wars seja visto como uma trama centrada sobre religião e espiritualidade, mais especificamente sobre a crença em uma força cósmica esquecida (the Force) e tratada com desdém após o extermínio quase completo de seus sacerdotes em uma guerra santa que encontra paralelo no passado das reformas religiosas europeias ou no presente do Oriente Médio. Cavaleiros jedis assemelham-se, nesse sentido, aos monges budistas, com seus robes longos e hábitos reservados, havendo até mesmo quem alegue que a trajetória de Luke Skywalker reedita aquela de Jesus Cristo: do batismo na fé (the Force) à entrega ao sacrifício pelo Pai, passando pela tentação, pelo isolamento e pelo reencontro celestial com seus Criadores (Obiwan, Yoda e Anakin).

        Há, ainda, quem veja nos filmes um debate profundo sobre a tecnologia e, mais especificamente, sobre os riscos e a resistência ao seu avanço, simbolizada por evoluídas máquinas de guerra e por estações espaciais capazes de explodir um planeta inteiro, sem falar em exércitos produzido por clonagem e em um vilão que é descrito a certa altura por Obi-Wan Kenobi como “more machine now than man: twisted and evil”.[10] Pragmaticamente, Star Wars bem poderia ser interpretado como a história dos droides R2D2 e C3PO, únicos personagens que aparecem em todos os filmes da franquia produzidos até hoje.[11]

        Em direção semelhante, já se afirmou que Star Wars é uma espécie de peça ficcional sobre a ascensão do nazifascismo na Europa e a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Não faltam, em nenhuma das três trilogias, cenas que mostrem exércitos alinhados e cultos às personalidades. Algum paralelismo com Hitler também já foi vislumbrado em mais de um personagem, embora tenha atingido seu ápice na impressionante saudação das tropas da Primeira Ordem ao General Hux em Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força. Há, por toda a obra, trocas de tiros em campos de batalha que remetem aos conflitos reais, avanço de máquinas devastadoras que lembram tanques alemães e explosões de bases aliadas e inimigas. Trata-se de uma guerra nas estrelas, afinal.

        O duelo entre democracia e autoritarismo também pode ser visto como o mote constante de todas as três trilogias. No cinema, como na vida real, forças autoritárias mudam de nome (Império,Primeira Ordem etc.), mas estão sempre ameaçando a liberdade plural e democrática. A própria exibição do filme original, Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança, de 1977, foi censurada em diferentes países, somente tendo ocorrido na China, por exemplo, em 2015.[12] Há, no extremo oposto, quem enxergue criticamente em Star Wars um instrumento de imperialismo, centrado sobre a exportação do “sonho americano”, bem à moda dos faroestes que serviram, como já visto, de declarada inspiração para George Lucas.[13] É inegável que Star Wars contém uma forte mensagem de liberdade política, mas não só política, podendo-se concordar com Cass Sunstein quando afirma que a mensagem central dos filmes é a defesa do livre arbítrio, da liberdade de escolha individual em relação ao caminho que decidimos trilhar a cada dia de nossas vidas.[14] É como exercemos essa liberdade de escolha que nos torna diferentes uns dos outros, aspecto explorado com maestria na comparação entre as trilogias em que cenas semelhantes parecem se repetir com resultados distintos.[15]

        Há quem diga, ainda, que se trata de uma obra sobre feminismo: o filme de 1977 tem como inegável heroína a Princesa Leia Organa, cuja coragem, senso de responsabilidade e espírito de liderança salvaram a Aliança Rebelde, enquanto meninos mais ou menos imaturos pilotavam naves espaciais e disparavam contra o Império. Leia continua esbanjando bravura, inteligência e poder de comando nos filmes seguintes, quando, por exemplo, salva Luke da morte nas últimas cenas de O Império Contra-Ataca ou, ainda, quando estrangula Jabba The Hutt em O Retorno de Jedi.[16] Atemporal, Leia Organa ressurge como líder da chamada Resistência na terceira trilogia, protagonizada agora por outra heroína, a jovem Rey (os vilões continuam sendo todos homens). Outros personagens femininos são fortes na série: Padmé Amidala, Shmi Skywalker, Capitã Phasma, Mon Mothma, Maz Kanata, entre outras tantas mulheres que não figuram em Star Wars como coadjuvantes, mas assumem papel decisivo nos rumos de uma guerra permanente entre as forças opressoras e a esperança de liberdade para todos.

        Ainda assim, há quem sustente exatamente a tese oposta: críticas já foram feitas à excessiva masculinização do universo de Star Wars, especialmente em relação aos produtos gerados pela série, porque haveria, por exemplo, uma escassez de representação das personagens femininas nos action figures e nas camisetas vendidas pelas empresas responsáveis pela exploração da franquia. A escolha de uma protagonista feminina (Rey) na terceira trilogia pode ter sido uma resposta ao problema. Há, ainda, quem veja como um forte símbolo da objetificação da mulher o traje de escrava sexual que Leia Organa usava em O Retorno de Jedi. Em 2015, uma reportagem da Fox 29 mostrou um pai de duas meninas furioso na Inglaterra por ter encontrado uma boneca da Princesa Leia vestida com o traje. O homem afirmou, na ocasião, que suas filhas “não precisam ver essa porcaria. Elas me perguntam, ‘pai, por que essa boneca tem uma corrente em volta do pescoço?’ Não tenho uma resposta para isso.” A atriz Carrie Fisher, que interpretou Leia Organa nos cinemas, considerou a polêmica sobre o seu traje “estúpida” e sugeriu ao pai indignado que explicasse às suas filhas “que uma lesma gigante me capturou e me forçou a usar aquela roupa estúpida e eu o matei porque não gostei disso. E então tirei roupa. Nos bastidores.”[17]

        Há, por fim, quem afirme que Star Wars é uma saga sobre redenção, sobre a capacidade do ser humano de se transformar e evoluir. Há quem veja ali críticas ao fordismo industrial e ao capitalismo de mercado, com linhas de produção de droides e clones, e quem associe os rebeldes aos comunistas perseguidos pelo Macarthismo norte-americano, ou, ainda, quem chegue ao extremo intolerável de afirmar que Star Wars é apenas um filme de ficção científica. Com exceção talvez da última, todas essas interpretações são válidas. Como acontece frequentemente com a interpretação das normas jurídicas e até dos fatos sobre o quais elas incidem, nenhum dos sentidos possíveis de Star Wars pode ser rechaçado como inválido, inaceitável ou falso. São todos sentidos verdadeiros, embora nenhum deles represente a verdade por completo. Esse é, a um só tempo, o êxtase e o drama da atividade de interpretar.

        A minha interpretação de Star Wars, todavia, difere de todas as interpretações já mencionadas. Não é uma interpretação melhor ou pior, mas distinta. Acredito que Star Wars não seja uma trama sobre pais e filhos, sobre religiões e espiritualidade, sobre os males do autoritarismo, os riscos da tecnologia ou sobre feminismo (embora eu, como pai de duas meninas destemidas, tenha adorado essa última tese). Na minha interpretação, Star Wars consiste, claramente, em uma saga sobre direito, advocacia e justiça. É o que passo a demonstrar.

3. Entre heróis e vilões: ad vocatus

        O que Star Wars tem de peculiar, de característico, de genuinamente seu é que, embora contando uma trajetória heroica, não se rende a uma contraposição simplista entre o bem e o mal. Em Star Wars, os heróis têm falhas de caráter, hesitam, acovardam-se, muitas vezes trapaceiam e, mesmo quando adotam atitudes louváveis, o fazem sem abandonar um permanente e palpável conflito entre o dever de praticar o bem e a tentação de ceder ao mal. Han Solo talvez seja o exemplo mais óbvio: um contrabandista mercenário que se une a quem pagar mais, acaba contratado por um velho místico e um garoto excessivamente inocente para levá-los a Alderaan e se torna, assim, quase que por acidente, um (anti)herói que será severamente perseguido durante toda saga por seu próprio individualismo, seu vício incorrigível de extrair de toda e qualquer situação vantagens para si próprio.

        Sem nunca perder o charme, Han Solo está mais próximo de um canastrão, de um malandro, de uma espécie de “um-sete-um” do espaço sideral que propriamente de um herói intergaláctico. Nem mesmo à beira da morte provável por congelamento em carbonite, Han deixa de lado seu caráter: quando Leia lhe concede um beijo desesperado e abre seu coração com um “I love you” definitivo, Han responde simplesmente “I know” (para absoluto delírio dos seus fãs que enxergam nisso não a falta de maturidade do homem moderno que insiste em não revelar seus sentimentos, mas o apego fiel e seguro do personagem à sua natureza autêntica, pragmática e avessa aos sentimentalismos). E, para quem até aqui pode estar achando que nada disso representa um mal real, mas apenas uma certa malícia que não descaracteriza o heroísmo, recomendo rever, na versão original de Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança, de 1977, a célebre cena da cantina de Mos Eisley em que Han Solo e Greedo discutem antes de uma troca de tiros de pistolas laser. Se você acha que Han apenas reagiu a um disparo, cuidado: pode acabar se confrontando com uma outra interpretação dos fatos.[18]

        O mesmo tipo de combinação de vícios e virtudes, o mesmo limiar fluido entre o bem e o mal pode ser percebido em todos os supostos heróis da trama. Lando Calrissian, um apostador aposentado que conquista misteriosamente o cargo de administrador da exuberante Cloud City, chega a trair seu velho amigo Han, para preservar tudo que havia conquistado no seu passado recente. Redime-se (e talvez apenas porque Darth Vader deixara de cumprir sua palavra com o ex-jogador) para salvar Han em seguida, mas quando o amigo já poderia estar morto por força do congelamento em carbonite. Qui-Gon Jinn é um homem frio e calculista, que cede à barganha de Watto e concorda em levar apenas um de seus dois escravos, aceitando separar um menino de sua própria mãe. Pior: quando Watto lança seu dado de sorte para que o destino decida entre a criança e a mulher, Qui-Gon não hesita em usar a Força para alterar o resultado da sua sorte. A cena revela que o cavaleiro jedi Qui-Gon Jinn é capaz de trapacear sem nenhum constrangimento, em favor dos seus próprios interesses, e que, sendo assim, bem poderia ter empregado algum tipo de truque jedi para convencer Watto a libertar também a mãe do pequeno Anakin.

        A separação entre mãe e filho pode ser vista como a causa primeira dos sentimentos de medo e raiva que acompanham Anakin nos filmes seguintes e, em última análise, pode ser encarada como a própria origem da sua conversão ao lado negro da Força. Aliás, o próprio Qui-Gon Jinn, à beira da morte, pede ao seu discípulo, Obi-Wan Kenobi, que treine Anakin, mesmo diante da hesitação já demonstrada pelo Conselho e sabendo que Obi-Wan não poderia recusar o pedido. Em suma, Qui-Gon não apenas separa Anakin da própria mãe em uma idade na qual o menino ainda necessitava daquele insubstituível afeto, mas também obriga seu discípulo (ainda não um mestre, portanto) a treiná-lo. A combinação desses dois fatores afigura-se tão evidentemente desastrosa, que não seria exagero afirmar que Qui-Gonn Jinn é, em certa medida, o responsável pelo surgimento de Darth Vader.

        Aliás, o maior dos mestres jedi, Yoda, também tem sua parcela de responsabilidade. É Yoda quem, em uma das últimas cenas de A Ameaça Fantasma, autoriza Obi-Wan a treinar Anakin, sem nem sequer ouvir o restante do Conselho Jedi, num claro arroubo de autoritarismo. Em O Ataque dos Clones, Yoda interrompe o treinamento de crianças para perguntar a elas onde está Kamino, o “planeta fujão” que Obi-Wan está buscando, humilhando-o diante da turma de aprendizes para, em seguida, já afastado dos alunos, admitir que somente um jedi poderia ter apagado o planeta da base de dados, o que seria, de fato, perturbador. Em O Império Contra-Ataca, o público descobre que, diante da ascensão de Darth Vader e do Império, Yoda, o mais poderoso dos jedis, buscou uma solução nada corajosa: o exílio no pantanoso planeta de Dagobah.

        Outro protagonista da saga, C3PO, é um droide covarde, que, para se salvar do desligamento, não hesitará em servir novos mestres, incluindo os inimigos dos seus antigos guardiões. Chewbacca, por sua vez, é um parceiro leal, mas uma fera irascível e impulsiva que quase enforca Lando em uma cela, o que eliminaria a única chance de fuga de seus companheiros. E o que se pode dizer do velho Obi-Wan Kenobi? O sábio ancião, de rosto angelical e olhos azuis, emerge em A Nova Esperança como uma espécie de símbolo do bem, apenas para que se descubra, nos filmes seguintes, que Obi-Wan não apenas se escondeu em montanhas de Tatooine, renunciando a combater o mal que o seu ex-discípulo espalhava cruelmente pela galáxia (não se sabe bem se por medo de ser derrotado por ele ou por um amor paternal que o impedia de confrontá-lo novamente, ainda que planetas inteiros viessem a sucumbir sob seu domínio), mas também mentiu deliberadamente para Luke Skywalker, dizendo que Darth Vader havia assassinado seu pai:

Luke Skywalker: – Como meu pai morreu?

Obi-Wan Kenobi: – Um jovem Jedi, chamado Darth Vader, que foi meu discípulo, foi seduzido pelo Lado Negro da Força. Ele traiu e matou seu pai.

        Não bastasse a mentira, Obi-Wan sai-se com a seguinte “explicação” em O Retorno de Jedi, quando Luke, após ter descoberto que Darth Vader era seu pai, o confronta:

Luke Skywalker: – Por que você não me disse? Você me disse que Vader traiu e matou meu pai.

Obi-Wan Kenobi: – Seu pai foi seduzido pelo Lado Negro da Força. Ele deixou de ser Anakin Skywalker e se tornou Darth Vader. Quando isso aconteceu, ele destruiu o bom homem que era seu pai. Assim, o que lhe disse é verdade. De um certo ponto de vista.

        Um conveniente jogo de palavras, para dizermos o mínimo. Não é pouco vindo de um jedi já em forma celestial. O argumento do ponto de vista, convém recordar, é usado por um poderoso Sith para convencer Anakin Skywalker a se voltar contra os cavaleiros jedi em Star Wars: Episódio II – O Ataque dos Clones.

Anakin: – Os Jedi usam o seu poder para o bem.

Palpatine: – Bondade é um ponto de vista, Anakin. E o ponto de vista Jedi não é o único válido. Os Lordes Sith acreditam em segurança e justiça também, mas eles são considerados pelo Jedi…

Anakin: – Malignos.

Palpatine: – Do ponto de vista de um Jedi. O Sith e os Jedi são semelhantes em quase todos os sentidos, incluindo a busca por poder. A diferença entre os dois é que os Sith não têm medo do Lado Sombrio da Força. É por isso que eles são mais poderosos.

        Voltemo-nos, porém, para o protagonista da trilogia original Luke Skywalker: há algum mal nesse menino supostamente órfão, idealista, um pouco atabalhoado, mas destemido, corajoso e apaixonado? Deixemos de lado o problema do apaixonado (incestuosamente, pela própria irmã) e vamos aos fatos. Luke percorre toda a trilogia inicial flertando com o lado negro da Força. Seu ódio cego contra Darth Vader o leva a arrancar sua cabeça numa caverna em Dagobah, sem ainda saber que se tratava de uma ilusão.

        A cena é cercada de simbolismos: a alusão ao mito da caverna de Platão seria instigante, mas, na análise do caráter do personagem, nos interessa mais o mito edipiano: não se tratasse de uma ilusão, Luke teria cumprido o destino de Édipo, assassinando seu próprio pai (sem consciência disso, claro, tal qual o próprio Édipo). A profecia não deixa de se realizar: Vader falece em decorrência dos ferimentos provocados por seu próprio filho, no primeiro parricídio da trama. A pressa de Luke por se tornar um cavaleiro jedi e sua impaciência com o tempo do aprendizado fazem dele um aluno pouco disciplinado e sempre advertido por seu mestre, Yoda: –  “Concentraaaaaaate!”.[19]

        Sua arrogância quase o impede de encontrá-lo quando aterrissa no planeta pantanoso. Sua falta de fé na Força torna-se explícita durante seu treinamento:

Luke: – I don’t… I don’t believe it.

Yoda: – That is why you fail.[20]

        Sua coragem também é duvidosa: quando despenca em um abismo após ser derrotado por Darth Vader, Luke decide comunicar-se mentalmente com Leia, pedindo seu retorno, mesmo sendo provável que, ao retornar para salvá-lo, sua irmã e seus amigos corressem grave perigo… O expectador tem ali, naquele breve instante, a sensação indizível de que a obsessão de Luke por derrotar Darth Vader (obsessão que para se realizar depende, naturalmente, da própria sobrevivência do jovem Skywalker) é maior que sua consideração por seus companheiros e familiares. E como explicar esse gesto individualista se o próprio Luke havia abandonado seu treinamento precocemente ao argumento de que precisava salvar esses mesmos amigos de um mal iminente? Ao fim e ao cabo, bem vistas as coisas, Luke poderia ser encarado como só mais um individualista egocêntrico em busca do seu protagonismo: movido inicialmente por um sentimento de vingança pela morte do seu pai e, após a decepção experimentada pela revelação da verdade (sentimento do qual a queda no abismo é uma eficiente metáfora), imbuído do desejo de convencer seu pai de que ele está errado, ainda que tenha que colocar em risco a vida de seus amigos para alcançar seus objetivos.

        Todos esses defeitos poderiam ser interpretados como falhas da juventude, mas Star Wars: Episódio VIII – Os Últimos Jedi comprova que o tempo não fará tão bem ao jovem Skywalker. Luke torna-se não apenas um velho rabugento e arrogante, mas chega ao ponto de enganar seus adversários com artifícios e subterfúgios. Em vez de enfrentar Kylo Ren na batalha de Crait, Luke senta-se confortavelmente sobre uma pedra na segura ilha de Ahch-To e se vale de um truque: projeta sua imagem para o campo de batalha. Ali, um samurai, honrado e valente, converte-se em um ilusionista acovardado e, para alguns, em um lamentável trapaceiro.

        Se os heróis de Star Wars não são inteiramente bons, os seus vilões também não se revelam inteiramente maus. Comecemos pelo topo. Darth Vader é, para muitos, o maior vilão da história do cinema. Na miríade de interpretações de Star Wars, há quem sustente que a saga conta, na verdade, a história de Vader, de sua origem e de seu legado. É, no mínimo, curioso que o maior vilão da história do cinema passe os três filmes que protagoniza deixando de praticar a maldade que dele se espera. Em Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança, Vader poupa a vida de Leia convencendo Grand Moff Tarkin que a princesa ainda poderá ser útil e deixa, já ao fim do filme, de efetuar o disparo fatal que destruiria a X-Wing pilotada pelo rebelde Luke Skywalker. O gesto resulta na destruição da Estrela da Morte, principal arma do Império. Em Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca, Vader deixa, mais uma vez, de liquidar o jovem Skywalker, desligando seu sabre de luz quando podia golpeá-lo mortalmente e o convidando, num inesperado gesto de generosidade, a reger a galáxia a seu lado. Luke rejeita a proposta preferindo se lançar ao abismo, ato que implicaria tristeza irremediável a qualquer pai, mas que não parece despertar no público nenhuma espécie de solidariedade com o pai em questão – afinal, trata-se do maior “vilão” que o cinema já produziu.

        Então, por que mesmo Darth Vader é um vilão? O que Vader faz, de fato, que lhe renda toda essa má reputação? Não há dúvida de que Vader aprisiona a Princesa Leia em Uma Nova Esperança – e a interroga, embora sem sucesso em uma das cenas mais controvertidas do filme[21] –, congela Han Solo em carbonite em O Império Contra-Ataca e pratica outros atos nada simpáticos, mas se trata de uma guerra onde as alternativas seriam bem piores. Bem vistas essas cenas, há comedimento e honradez por trás da máscara negra de Darth Vader. Aliás, não custa perguntar se não seria a própria máscara negra a razão para todo o medo e antipatia que Darth Vader inspira? Como não associar a aparência sinistra, a armadura pesada, a face robótica, a voz metálica, a capa escura e aquela respiração inconfundível a um vilão? Estaríamos julgando Darth Vader pelo seu exterior? O medo que ele nos inspira seria a razão da nossa raiva, completando nosso transcurso para o dark side of the Force? Afinal, como adverte Yoda em A Ameaça Fantasma:

Yoda: – Fear is the path to the dark side… fear leads to anger… anger leads to hate… hate leads to suffering.[22]

        Há uma dúvida razoável acerca de Darth Vader: ele é o vilão ou os vilões somos nós? Adestrado a julgar pessoas por suas aparências, o público dos cinemas em 1977 reconheceu prontamente em Darth Vader o mal encarnado. Os filmes seguintes revelam, pouco a pouco, a humanidade do personagem, um homem que hesita em suas decisões, atormentado por suas próprias escolhas, e um pai comovido diante do olhar atônito do seu próprio filho. A trilogia de 1999 a 2005, que conta a história do menino prodígio que se transformaria em Darth Vader, reafirma essa humanidade, detalhando a trajetória de sofrimentos e tentações que se aplaca sobre um adolescente indeciso quanto ao seu caminho. É O Retorno de Jedi, entretanto, que nos confronta com uma realidade difícil de admitir: Darth Vader, rejeitado e mutilado por seu próprio filho, que acabara de lhe arrancar a mão, encontra forças para se erguer sobre seus próprios destroços a fim de salvar o menino e a galáxia. O monstro é, ao fim e ao cabo, o herói. Não é Luke, com seus olhos azuis, que derrota o Império e restaura a paz na galáxia. É Darth Vader, “mais máquina que homem”, o verdadeiro redentor da saga. Faltou-lhe apenas um bom advogado.

        Em algum grau, a mesma dose de virtude pode ser encontrada nos outros vilões de Star Wars ou, ao menos, suas falhas podem ser compreendidas à luz de suas próprias trajetórias. Tomemos como exemplo Bobba Fett, o temido caçador de recompensas da trilogia original. Bobba aparece em Episódio II – O Ataque dos Clones como um menino criado a partir de um procedimento de clonagem e tratado com carinho extremo pelo pai, Jango Fett, mas Jango acaba sendo decaptado pelo Mestre Windu diante dos olhos arregalados de seu filho. Bobba passa a viver, então, sob a tutela de Jabba, the Hutt, um criminoso indecente. Que tenha se tornado um caçador de recompensas não parece um destino de todo condenável no contexto de sua própria história, assim como não se afigura inexplicável o seu ódio mortal pelos cavaleiros Jedi, que lhe privaram (privação que jamais pode ser justa) do pai. E o que dizer de Kylo Ren, o antagonista da última trilogia? Em Star Wars: Episódio VIII– Os Últimos Jedi, o público descobre que Kylo acorda durante uma noite com seu tio e tutor Luke Skywalker empunhando um sabre de luz para assassiná-lo. Qual efeito um gesto como esse pode produzir sobre uma criança? Luke apresenta, claro, sua versão do acontecimento, explicando todo o mal futuro que viu no menino, mas reconhece que a última coisa que viu foram os olhos assustados de um garoto “whose master had failed him”.[23]

        A versão de Luke, verdadeira ou falsa, não torna menos justificada a revolta do jovem Kylo. Explica, em larga medida, sua partida para o lado negro da Força. Algo semelhante ocorre com o Conde Dookan (Count Dooku na versão original),[24] o inesquecível vilão dos episódios II e III, brilhantemente interpretado por Christopher Lee. Sabe-se que Dookan foi um mestre jedi, o melhor discípulo de Yoda e primeiro professor de Qui-Gon Jinn. Após anos lutando ao lado dos demais cavaleiros jedis, Dookan atende a uma ordem do Conselho Jedi para viajar ao planeta de Galidraan e enfrentar os Madalorianos que estariam assassinando rebeldes políticos. Após uma desastrosa batalha, com pesadas baixas de ambos os lados, descobre-se que o Governador de Galidraan havia ludibriado o Conselho. Dookan decepciona-se com a ordem dos jedis e a abandona, afirmando: “Foi um engano desde o início… Apenas mais um entre tantos ordenados pelo Conselho.” [25] O distanciamento dos antigos companheiros, motivado por uma discordância razoável em relação às decisões do Conselho Jedi, acaba o levando a se tornar, por influência de Palpatine, um lorde Sith e, como tal, um inimigo da ordem. Dookan é atacado, a um só tempo, por dois jedis, Obi-wan e Anakin (não se podendo deixar de notar a covardia evidente na luta de dois contra um, como, aliás, já havia acontecido contra Darth Maul em A Ameaça Fantasma) e assassinado por este último.

        Em resumo, pode-se dizer que, bem vistas as coisas, temos em Star Wars heróis que não são tão heróis e vilões que não são tão vilões assim. E que diabos isso tem a ver com a advocacia? Tudo. Ser advogado é, em essência, enxergar os fatos e as pessoas sem os rótulos que um primeiro olhar atrairia. O advogado é, por definição, um estudioso da natureza humana. A primeira versão, a mais óbvia, nunca o convence. É preciso compreender cada acontecimento em seus múltiplos aspectos porque somente a compreensão plena pode nos fornecer a correta chave de leitura dos fatos. O advogado é, nesse sentido, um desconfiado, um incrédulo, um obsessivo praticante da arte de enxergar além. E, nesse ofício, não raro as primeiras impressões acabam se revelando falsas e as verdades evidentes mostram-se infundadas. Fatos novos descortinam aspectos do caso concreto que os relatos iniciais falharam em retratar. E, nessa progressiva investigação da verdade, ocasionalmente, heróis transformam-se em vilões, e vilões, em heróis.

        Isso não significa dizer que o advogado seja um relativista moral, para quem não exista verdade e mentira, para que não exista o lícito e o ilícito, para quem não haja o bem e o mal. O advogado apenas não julga pelas aparências, não se contenta com a verdade fácil das primeiras manchetes de jornal. Seu compromisso não é com a imediatez da notícia, nem com o furor da opinião pública. Seu compromisso é com a realização da justiça. E, para realizá-la, muitas vezes o advogado terá de vencer verdadeiros duelos de sabres de luz em que a substância cortante são as palavras. O exercício cotidiano da advocacia assemelha-se, em diversos momentos, a uma espécie de esgrima verbal, em que os argumentos de um duelista são aparados e contrapostos pelo outro. O palco da batalha são as salas de audiência e as tribunas, de onde o advogado desfere seus golpes em uma luta infinita para que vença a verdade em que acredita.

        Também na advocacia é preciso enfrentar, frequentemente, estrelas da morte, exércitos de stormtroopers e um ou outro Darth Maul com espadas de luz que se acendem dos dois lados. Vez por outra, abre-se um cadafalso e o advogado pode se ver diante de um Rancor e há mesmo quem despenque de abismos em face de uma derrota. Na vida, como em Star Wars, é preciso dar a volta por cima e confiar na justiça. É preciso, sobretudo, seguir em frente na missão de defender direitos que possam estar sendo feridos ou injustamente ameaçados. O advogado realiza-se exercendo o papel que o nome de sua profissão lhe impõe: ad vocatus. É preciso ser a voz dos outros, especialmente a voz daqueles que não têm voz.

        Nesse sentido mais puro, a advocacia é uma saga permanente em defesa daqueles que se vejam, momentânea ou continuamente, oprimidos pelas forças poderosas do Estado, do mercado ou de qualquer outra entidade impessoal que ceda à tentação de converter a pessoa humana em um mero instrumento para atingir seus fins. Todos nós, advogados, somos, de uma certa forma, membros de uma Aliança Rebelde ou de uma Resistência que tenta evitar a vitória do autoritarismo, da intolerância à diferença e dos abusos de poder. Ou, ao menos, queremos nos ver desse modo porque há seguramente aqueles que cedem ao lado negro durante a batalha, mas a maioria de nós continua lá, empunhando seus sabres de luz nos tribunais. E não é raro que, antes de uma sustentação oral, alguém lhe venha desejar sorte ou sucesso, das formas mais variadas. Houve até uma ocasião em que um colega aproximou-se de mim e me disse baixinho:

May the Force be with you.[26]

4. E quem é o juiz?

        O juiz é o Imperador. Não, não em maldade naturalmente, mas em poder o juiz se equipara ao Imperador. O juiz detém, de fato, o poder absoluto, sendo o titular da palavra definitiva que decidirá os destinos dos envolvidos no conflito submetido ao seu julgamento. Como o Imperador, nas últimas cenas de O Retorno de Jedi, o juiz assiste de seu trono imperial o duelo de sabres de luz, observando atento a cada golpe e contragolpe, a fim de saber quem será o vencedor. Ou então não: o juiz não é o Imperador. O juiz é o público, o conjunto de espectadores universais da saga. O cinema converte-se em uma grande sala de audiências e a plateia assiste à batalha épica entre os dois lados da Força.

        Todos são chamados a julgar, menos o advogado. Ao advogado compete apresentar sua genuína interpretação das normas e dos fatos, nesse todo unitário que compõe a aplicação do direito. Ao advogado compete, ainda, provar que sua interpretação é a mais adequada à luz da ciência jurídica. Seu objetivo não consiste meramente em convencer o juiz, mas em convencer o auditório universal de que sua interpretação é aquela que efetivamente deve prevalecer. Nem sempre a tarefa é simples. Mesmo quando a razão parece estar fortemente do lado daqueles que defendemos, a defesa pode ser árdua se houver um bom advogado do lado oposto. Concentremo-nos apenas em alguns dos atos que já mencionamos.

        Julguemos, por exemplo, Luke Skywalker pela tentativa de assassinato de Kylo Ren. O advogado de Kylo sustentaria que a tentativa de homicídio é punível e que, no caso concreto, há agravantes: o agressor é o próprio tio e tutor, que abusa da posição de confiança, praticando a tentativa na calada da noite, enquanto o pequeno Kylo dormia. Acrescentaria a isso que o gesto deve ensejar indenização por danos morais, tendo provocado terror profundo no menino, traumatizando-o para sempre e impedindo o desenvolvimento de relações familiares sadias, conforme se pode demonstrar pelo distanciamento de sua mãe, Leia, e o assassinato a sangue frio de seu pai, Han. O advogado de Luke alegaria que a coisa já foi esclarecida; que Luke temia todo o mal que o menino poderia causar no futuro (o que, de resto, vem se confirmando); que se arrependeu e já sofreu a devida sanção por seu ato, tendo ingressado em autoexílio; e, finalmente, que as atitudes de Luke, ao longo de toda a saga, comprovam suas melhores intenções (não há dolo, portanto). Talvez o advogado de Luke acrescentasse, ainda, que o crime prescreveu e que seu cliente tem, de qualquer modo, em termos processuais, a (questionável) prerrogativa do foro privilegiado, podendo Luke ser julgado apenas pelo Conselho Jedi, o qual não pode, por ora, se reunir, em virtude da ausência de membros. Qual seria, ao final, o veredito?

        Julguemos Han Solo pela morte de Greedo. O advogado de Greedo alegaria que Han atirou primeiro na versão original de 1977 e que a cena foi adulterada duas décadas depois, comprovando a existência de verdadeira conspiração contra seu cliente; que Greedo estava apenas exercendo seu trabalho de caçador de recompensas, uma profissão como qualquer outra; que Han era um criminoso procurado pelo Império e um contrabandista sem escrúpulos; que o disparo de Han foi efetuado por baixo da mesa da cantina de Mos Eisley, agravando o ato por meio do malicioso subterfúgio empregado; e que a família de Greedo, que dele dependia economicamente, merece justiça. O advogado de Han alegaria, por sua vez, que a morte resultou de ato praticado em legítima defesa; que as provas neste caso são imprestáveis, já que a cena na última versão de 1999 exibe disparos aparentemente simultâneos; e que, se houve adulteração da cena, não foi praticada por Han, mas sim por George Lucas, não podendo Han responder por atos de terceiros. Argumentaria, ainda, que Greedo estava a serviço de um criminoso conhecido (Jabba, the Hutt) e que, já na infância, Greedo exibia sinais de sua personalidade irascível, como se poderia ver na versão sem cortes de Episódio I – A Ameaça Fantasma, filme em que o jovem alienígena acusava o seu amigo Anakin de ter roubado para vencer a corrida de pods em Tatooine, provocando uma briga que acabou deletada na versão final do filme,[27] fato que comprova, de resto, que, se houve conspiração, foi a favor e não contra Greedo. Quem teria razão, afinal?

        Julguemos, em um último exemplo, o mestre jedi Obi-Wan Kenobi pela prática de calúnia contra Darth Vader, consubstanciada no ato de mentir deliberadamente para Luke, afirmando que Vader assassinou seu pai. O advogado de Obi-Wan afirmaria que a intenção de seu cliente nunca foi falsear a verdade, mas poupar Luke da severa notícia de que Darth Vader era seu pai biológico; que o próprio Darth Vader nunca adotou qualquer iniciativa para se aproximar de seu filho (tendo, bem ao contrário, decepado-lhe a mão em O Império Contra-Ataca); que Obi-Wan exercia, naquele momento, uma espécie de paternidade socioafetiva em relação a Luke, vínculo que deve prevalecer sobre o liame biológico; e, finalmente, que aquilo que seu cliente contou a Luke Skywalker é “verdade, de um certo ponto de vista” e que todos vamos aprender que “muitas das verdades às quais nos apegamos dependem muito do nosso ponto de vista”.[28] Já o advogado de Vader alegaria que a falsa imputação de um crime gera consequências cíveis e penais em numerosos sistemas jurídicos; que a mentira causou efeitos profundos na relação paterno-filial de Darth Vader e o jovem Luke, despertando tamanho ódio no rapaz que Luke chegaria ao ponto de, primeiro, tentar e, depois, efetivamente conseguir assassinar o seu próprio pai; e que o ato de Obi-Wan representou não apenas a violação do dever que recai sobre todo jedi de dizer a verdade, mas também o início de uma onda de fake news que perdura até os dias atuais, com graves danos para toda a sociedade. Sustentaria, ainda, que a falsa afirmação consistiu em ato de alienação parental, evidenciando uma prática sistemática voltada à privação do convívio entre Darth Vader e seu filho, que se inicia com o sequestro de Luke e Leia por Obi-Wan nas últimas cenas de Episódio III – A Vingança dos Sith, crime que é objeto de processo conexo. Ao fim e ao cabo, qual dos dois deve restar condenado?  

        A missão de julgar não é nada fácil. Não raro, ambos os lados apresentam argumentos convincentes em defesa de sua própria interpretação dos acontecimentos. Para julgar bem, o juiz deve, em primeiro lugar, ser imparcial e equidistante em relação às partes. Deve ostentar, ainda, uma serenidade inerente à função daquele que, embora não desprovido de paixões, tem o dever de não se deixar levar pelas emoções que as diferentes versões despertam. “Adventure. Excitement. A Jedi craves not these things.”[29] Um bom juiz deve evitar, nesse sentido, aplicar ao caso concreto aquela que ele entende ser a sua própria razão, o seu próprio sentimento de justiça. Seu compromisso não é para com o seu ideal pessoal de vida, mas para com a Constituição da República e as leis emanadas democraticamente pelo Congresso Nacional, interpretadas sempre à luz dos valores constitucionais. Um magistrado pode ser adepto de uma determinada filosofia política ou torcer contra um certo time de futebol, mas não pode deixar que essas características influenciem no seu julgamento. Um bom juiz deve compreender-se, antes de tudo, como um servidor público, a serviço de todo e qualquer cidadão e do seu irrenunciável direito de ver aplicadas ao seu caso concreto as leis do seu país.

        Devo aqui um registro: como advogado, jamais perdi um caso em que eu tivesse razão à luz da ciência jurídica. Quando perdi, recorri e ganhei. E quando não ganhei foi porque, bem vistas as coisas, eu não tinha razão, ainda que assim não me parecesse ao início. Minha confiança nos juízes e na Justiça vem sendo reforçada ao longo dos anos. E essa confiança nas chamadas instituições jurídicas – incluindo o Poder Judiciário e a própria advocacia – consiste, a meu ver, na própria essência de uma sociedade democrática. E na sua força. “Its energy surrounds us and binds us. Luminous beings are we … not this crude matter. You must feel the Force around you.”[30]

5. Uma história de superação e justiça

        Como o exercício cotidiano da advocacia, Star Wars é também uma história de superação e justiça. Desde o início das filmagens do filme original de 1977, a produção foi cercada de problemas. George Lucas já havia encarado a recusa de grandes estúdios para realizar o filme, incluindo a Universal e a Paramount, até que a Fox decidiu aceitar o projeto, embora não sem alguma preocupação. A versão inicial do roteiro do filme parecia confusa e Lucas a alterava constantemente. Al Pacino havia recusado o papel de Han Solo ao argumento de que “não entendi o roteiro”.[31] No set de filmagens, havia entre atores e membros da equipe um clima permanente de “I have a bad feeling about this[32] – única frase repetida, ao menos uma vez, em todos os filmes da franquia, talvez como uma homenagem cifrada à superação do pessimismo que cercou a produção do filme original.

        As mudanças na história foram constantes ao longo do tempo. Por exemplo, após duas semanas de filmagem, Lucas decide que Obi-Wan Kenobi teria que morrer ao fim do filme, ao contrário do que constava da versão vigente do roteiro, que terminava com Darth Vader escapando do duelo por uma porta blindada que se fechava atrás dele. Quando o ator Alec Guiness foi comunicado da morte do seu personagem, ameaçou abandonar o filme, e Lucas teve de se esforçar para convencê-lo a permanecer. Guiness era o único ator do elenco que já tinha ganhado um Oscar. Um mês depois da conversa, ele declarou ao jornal Sunday Times: “devo dizer que estou um tanto em perdido em relação ao que se espera de mim… O que deveria estar fazendo, não sei dizer ao certo.”[33]

        As mutações do roteiro alcançaram até mesmo o nome do protagonista da obra. Quando as filmagens se iniciaram, o roteiro contava “as aventuras de Luke Starkiller”, mas, em determinado ponto, George Lucas achou que o sobrenome poderia evocar um assassino em série para o público norte-americano, que ainda tinha na memória os assassinatos de Charles Mason em 1969.[34] Indagado, mais tarde, sobre as alterações do script, Lucas chegou a declarar: “Nunca atingi um grau de satisfação em que achasse o roteiro perfeito. Se não tivesse sido obrigado a fazer o filme, sem dúvida ainda o estaria reescrevendo agora.”[35]

        Os problemas foram se acentuando cada vez mais. As cenas no deserto de Tatooine foram gravadas na Tunísia, onde os atores que interpretaram C3PO e R2D2, Anthony Daniels e Kenny Baker, costumavam desmaiar nas gravações devido ao forte calor. Daniels reclamava que mal conseguia ver e ouvir no traje metálico e não era incomum que caísse após apenas alguns passos. O ator chegou a declarar: “Eu estava muito, muito cansado, e muito irritado.” Para piorar, vento e chuvas pesadas – as primeiras em quase uma década no deserto tunisiano – “danificaram cenários e elementos cinematográficos, e a luz, que acabava rapidamente, tornava quase impossível para Lucas filmar Hamill, na pele do personagem Luke Skywalker, silenciosamente contemplando seus sonhos contra um causticante pôr do sol no deserto (três dias se passaram antes de Lucas conseguir colocar em celuloide a cena agora icônica).”[36]

        Antes mesmo do início das filmagens, o maquiador e criador de máscaras Stuart Freeborn havia ficado gravemente doente e deixado a maior parte dos monstros da cantina de Mos Eisley inacabada, resultando em um produto final que Lucas e a maior parte dos atores considerava decepcionante, à luz das expectativas iniciais que o roteiro despertara.[37] Brian Jay Jones, biógrafo de Lucas, assim resumiu o clima durante as filmagens: “Desde o primeiro dia, Star Wars seria uma produção tão cheia de problemas que iria estourar o orçamento, esgotar física e mentalmente Lucas e abusar tanto da paciência dos executivos da Fox que, por muito pouco, o estúdio não suspendeu de vez o filme.” O próprio George Lucas declararia em carta escrita à época para sua ex-mulher: “Esqueci de como realmente é impossível fazer filmes (…) Fico muito deprimido, e acho que nunca vou superar isso.[38]

        Superou. A pré-estréia de Star Wars aconteceu em 1o de maio de 1977 no Northpoint Theater de São Francisco.[39] A plateia foi ao delírio já na cena inicial (hoje, icônica) em que um imenso star destroyer toma praticamente toda a tela em perseguição à nave que transporta a Princesa Leia. Os aplausos ao fim do filme se sucediam infinitamente. George Lucas tentava conter seu entusiasmo, mas Allan Ladd Jr., diretor da Fox, caiu em lágrimas. Do lado de fora do cinema, o pai de George Lucas apertava orgulhosamente a mão de qualquer um que passava, dizendo com o rosto iluminado: – Obrigado. Obrigado por ajudar George![40]

        Com 33 anos, George, que havia insistido naquele tal de “damn movie business” tão fustigado por seu pai, consagrou-se naquele dia como um dos maiores diretores da história do cinema americano, tornando-se, a partir de então, um sinônimo de sucesso para a indústria cinematográfica do entretenimento. Nesse sentido, Star Wars representa em si mesmo, por debaixo de toda a ficção, uma história real de superação por parte de todos aqueles que se mantêm fiéis aos seus sonhos. E representa também uma história de justiça, a justiça que, mesmo quando tardia, exprime a vitória final da perseverança pela realização de um ideal.

6. À guisa de conclusão: uma revelação pessoal

        Eu sou seu pai. Não, a revelação pessoal em questão não consiste obviamente em algo tão impactante quanto aquela que marcou para sempre a história do cinema. Trata-se de algo bem mais singelo. Assisti Uma Nova Esperança nos anos 80, em uma fita VHS mais emperrada que o hiperdrive da Millenium Falcon. Eu tinha oito anos de idade. O filme marcou a minha infância tal como a infância de quase todas as crianças da minha geração. Perdi a conta de quantas vezes empunhei meu sabre de luz (um tubo de plástico verde amassado pelo número excessivo de duelos) para combater um Darth Vader imaginário. Em uma ocasião, tentei iludir uma professora da escola usando um velho truque jedi (“esse não é o menino que está matando aula”). Na oficina do bairro, arrumei peças mecânicas que eu usaria para construir minha própria espaçonave X-wing, a fim de partir para uma galáxia muito, muito distante. A X-wing nunca ficou pronta, mas ainda tenho uma foto empunhando meu sabre de luz inteiramente coberto de graxa.

        As últimas cenas de O Império Contra-Ataca causaram-me um choque profundo: como assim Darth Vader é pai de Luke Skywalker? Depois de alguns dias de absoluta perplexidade, a coisa começou, todavia, a fazer sentido. A maldade pode surgir de onde menos se espera. E a bondade também. Ao fim e ao cabo, Star Wars não é apenas uma saga em que os heróis têm alguns defeitos e os vilões têm algumas virtudes. Star Wars é uma obra sobre como as pessoas podem mudar. Se, como evidencia O Retorno de Jedi, um monstruoso ciborgue mascarado de respiração ofegante pode se redimir, salvar a galáxia e trazer o equilíbrio de volta à Força, reconquistando seu próprio filho, qualquer um pode superar seus erros e se tornar o que quiser. Vilões podem virar heróis e heróis, vilões. Cada um de nós decide em que parte dessa frase vai concentrar sua atenção. Aos olhos da minha infância, Star Wars sempre foi um filme sobre esperança, uma esperança que reencontro cotidianamente no exercício da advocacia e no ensino do direito.

        A vida insiste em nos distanciar da infância, à qual devemos nos permitir retornar de tempos em tempos para relembrar aquele extraordinário encantamento que acomete as crianças diante de tudo que é novo. Minha filha, Olivia, com apenas três anos de idade, me prova isso dia após dia: só as crianças detêm a falta de ceticismo e desconfiança que as permite enxergar as coisas do mundo em seus aspectos mais fascinantes. Não sei, sinceramente, se isso é a tal pureza infantil. Me soa mais como uma genuína forma de sabedoria. “Truly wonderful, the mind of a child is”.[41] De minha parte, fiquei quase trinta anos longe de Star Wars. Passei todo esse tempo sem ver os filmes originais, que revisitei para escrever este ensaio. Confesso que a magia da saga renasceu em mim em menos de doze parsecs.[42] E renasceu de um modo tão saboroso que estou aqui digitando frases no computador enquanto movo livros e outros objetos ao meu redor usando apenas o poder da minha mente… Você não acredita? That is why you fail.

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[1] Para um breve resumo de cada um dos filmes, ver o site oficial da franquia: www.starwars.com/films.

[2] Rendendo, ainda no ano de 1977, 120 milhões de dólares aos estúdios da Fox e superando Jaws (Tubarão) de Steven Spielberg, que havia gerado um faturamento de 115 milhões de dólares aos estúdios da Universal. A revista Variety publicaria um desenho de página inteira mostrando R2D2 pescando o tubarão, acompanhado de uma simpática mensagem de congratulações de Steven Spielberg a George Lucas. Lucas devolveria a gentileza em 1982 quando o ET de Spielberg bateria, enfim, o recorde de Guerra nas Estrelas. Ver, sobre o tema, reportagem da Business Insider: www.businessinsider.com/steven-spielberg-ad-when-star-wars-beat-jaws-at-box-office-2014-5.

[3] Referência a Peter Mayhew, ator britânico de 2,20m escolhido para interpretar o personagem Chewbacca (Cass R. Sunstein, The World According to Star Wars, 2016, p. 31).

[4] A contraposição fica clara no (cronologicamente posterior) Episódio III, intitulado “A Vingança dos Sith”. Registre-se, ainda, que, em 2016, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas localizou em seus arquivos o trailer do filme de 1983 com o título “Revenge of the Jedi”. O referido trailer pode ser visto em: http://www.supervault.com.br/2016/05/trailer-de-vinganca-do-jedi-e.html. 

[5] Em português: “Faça, ou não faça. Não existe tentar.” (frase de Yoda para Luke Skywalker durante seu treinamento em Dagobah no filme O Império Contra-Ataca).

[6] Embora também seja fato que George Lucas tinha um colega de escola no Downey High School chamado Gary Vader (Brian Jay Jones, George Lucas – Uma Vida, Rio de Janeiro: Bestseller, 2017, p. 237).

[7] Bambi, Dumbo, Tarzan, Mogli, Cinderela, Aladdin, Branca de Neve, Frozen, O Rei Leão, O Corcunda de Notre Dame, para ficar apenas em alguns exemplos. 

[8] Cass Sunstein, The World According to Star Wars, 2016, p. 95.

[9] O ator Mark Hamill chegou a declarar a um jornal: “Estou interpretando Lucas no filme” (Robert L. Rose, Career comes on silver platter for Mark Hamill, in Salt Lake City Tribune, 12.6.1977).

[10] Tradução: “(…) mais máquina que homem agora: perverso e maligno.” (Obi-Wan Kenobi em O Retorno de Jedi).

[11] Essa interpretação é reforçada por uma das últimas cenas de O Retorno de Jedi em que C3PO aparece como contador de histórias para os pequenos Ewoks (o que indicaria que é efetivamente o narrador oculto da saga) e pelo fato de que R2D2 e C3PO são os únicos a testemunharem alguns acontecimentos importantes, como o casamento entre Anakin Skywalker e Padmé Amidala em Star Wars: Episódio II – O Ataque dos Clones

[12] Star Wars de 1977 é exibido pela primeira vez nos cinemas da China, reportagem da France Presse publicada em 16.6.2015 em g1.globo.com.

[13] Embora o próprio George Lucas tenha sugerido que o filme original de 1977, Star Wars, representaria, de certo modo, seu protesto secreto contra a campanha no Vietnam, encerrada apenas alguns anos antes (HowStar Wars was secretly George Lucas’ Vietnam protest, reportagem de Kyle Smith publicada em 21.9.2014 no New York Post e disponível em nypost.com).

[14] “That we always have freedom of choice is one of the most important things that Lucas meant to say, and his successors are saying it, too. The people who love Star Wars hear it, loud and clear. The point here is sweet and simples, and so we can be brisk.” (Cass Sunstein, The World According to Star Wars, 2016, p. 106). 

[15] Na explicação do próprio George Lucas: “Luke is faced with the same issues and practically the same scenes that Anakin is faced with. Anakin says yes and Luke says no.” (Cass Sunstein, ob. cit., p. 108). 

[16] A propósito, a atriz Carrie Fisher revelou, em 2014, em um festival no País de Gales: “Me perguntaram no dia se eu queria uma dublê para matar o Jabba. Não! Esse foi o melhor momento que eu tive como atriz. A única razão para atuar é poder matar um monstro gigante”. No original: “I had a lot of fun killing Jabba the Hutt. They asked me on the day if I wanted to have a stunt double kill Jabba. No! That’s the best time I ever had as an actor. And the only reason to go into acting is if you can kill a giant monster.” (reportagem de Daniel Bates para o Dailymail.com, datada de 27.12.2016 e disponível em www.dailymail.co.uk).

[17] Reportagem de 07.12.2015 publicada em www.huffpostbrasil.com. A mesma atriz, contudo, enviou, em outubro daquele ano, um recado a Daisy Ridley, a atriz que interpreta a nova protagonista de Star Wars: “Não seja uma escrava como eu fui. As pessoas vão ter fantasias com você! Isso vai fazer você se sentir desconfortável, eu suponho.” Carrie Fisher faleceu em dezembro de 2016.

[18] Embora para a maior parte dos expectadores a troca de tiros pareça simultânea, Han atira primeiro na versão de 1977. A cena, todavia, foi modificada no relançamento da trilogia em 1997, a fim de fazer com que o disparo de Greedo parecesse anterior. A Variety chega a afirmar que, com a alteração, “fans lost their minds. It was an affront, the neutering of a badass.” (www.variety.com, 26.5.2018). O novo spin off da franquia, Solo: A Star Wars Story promete reviver a velha polêmica, solucionando-a em prol da versão original.

[19] Tradução: “Conceeeeeentre-se.” Sobre Luke, Yoda chega a afirmar: “A Jedi must have the deepest commitment, the most serious mind. This one a long time have I watched. All his life has he looked away…to the future, to the horizon. Never his mind on where he was.”

[20] Tradução: “Luke: – Eu não… eu não acredito. Yoda: – É por isso que você fracassa.”

[21] A cena mostra um droide com uma seringa entrando na cela de Leia enquanto um confiante Darth Vader pergunta sobre a localização da base rebelde. Não há registro de que a seringa tenha sido efetivamente usada ou que o droide tenha empregado qualquer forma de tortura. Leia aparece na cena seguinte sem qualquer sinal físico ou comportamental de ter sido submetida à tortura. Há quem afirme que Vader nunca usou o droide, por discordar desses métodos. Outros sustentam que se trata de um erro evidente do filme ou do roteiro. Aliás, o próprio fato de que Darth Vader, todo-poderoso na Força, não reconhece Leia como sua filha tem sido mencionado como um “furo” do roteiro do filme original ou, ainda, como indício de que George Lucas foi elaborando a trama da paternidade de Vader aos poucos, apenas após o sucesso do filme de 1977. 

[22] Tradução: “O medo é o caminho para o lado negro. O medo leva a raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento.”

[23] “E a última coisa que vi foram os olhos assustados de um garoto cujo mestre falhou com ele.” (Luke Skywalker, em Star Wars: Episódio VIII– Os Últimos Jedi).

[24] O nome do personagem foi alterado no Brasil para evitar trocadilhos. Outro personagem que teve o nome alterado foi o mestre jedi Syfo-Dias, que passou a atender pelo nome mais respeitoso de Zaifo Vias (Fox brasileira muda nomes em Star Wars, matéria de Érico Borgo para o site www.omelete.com.br, 14.5.2002).

[25] Fonte: http://pt.starwars.wikia.com/wiki/Legends:Batalha_de_Galidraan.

[26] Tradução: “Que a Força esteja com você.” A frase icônica é dita por diversos personagens de Star Wars ao longo da saga, embora não apareça neste exato formato em todos os filmes da série. Por força da semelhança sonora com a frase em inglês, o dia 4 de maio é considerado o Dia Mundial de Star Wars, reunindo em celebrações ao redor do mundo os fãs da saga, que se cumprimentam dizendo “May the fourth be with you” (“Quatro de maio esteja com você”). Afirma-se que o primeiro uso do trocadilho ocorreu quando Margaret Thatcher foi eleita para ocupar o cargo de Prime Minister na Grã-Bretanha, em 4 de maio de 1979, tendo seu partido publicado um anúncio de meia página no The London Evening News que dizia “May the Fourth Be with You, Maggie. Congratulations.” Para mais detalhes, ver reportagem da Danish National Radio online news, publicada em 4.5.2011 em www.dr.dk, além do site oficial da franquia: www.starwars.com/may-the-4th.

[27] A cena deletada, com os comentários de George Lucas e outros realizadores de A Ameaça Fantasma, pode ser vista em www.youtube.com/watch?v=ao0eQZDsXUU. A cena mostraria o temperamento difícil de Anakin, já na infância. A explicação oficial para o corte é que Lucas queria que Anakin fosse retratado como essencialmente bom na infância, tornando-se uma pessoa má apenas progressivamente, no início da vida adulta.

[28] Citando o próprio Ben Kenobi, em O Império Contra-Ataca.

[29] Tradução: “Aventura. Excitação. Um Jedi não anseia por estas coisas.”

[30] Tradução: “é a energia que cerca-nos, e liga-nos, luminosos seres somos nós e não essa rude matéria. Você precisa a força sentir ao redor seu, sinta entre você e a árvore, a pedra, em todo lugar, sim, é, mesmo entre a terra e a nave” (Yoda explicando a Força para Luke Skywalker durante o seu treinamento no pantanoso planeta de Dagobah).

[31] Al Pacino recusou papel em ‘Star Wars’ por não entender o roteiro, reportagem publicada em 5.6.2013 no site g1.globo.com.

[32] Tradução: “Eu tenho um mau pressentimento sobre isso”.

[33] Brian Jay Jones, George Lucas – Uma Vida, Rio de Janeiro: Bestseller, 2017, p. 241.

[34] Para mais detalhes sobre essa e outras tantas versões do roteiro do filme original de 1977, ver: http://starwars.wikia.com/wiki/Adventures_of_the_Starkiller,_Episode_I:_The_Star_Wars.

[35] Claire Clouzot, The Morning of the Magician: George Lucas and Star Wars, in Ecran, 5.9.1977.

[36] Brian Jay Jones, ob. cit., p. 244.

[37] George Lucas: Heroes, Myths, and Magic, in American Masters, PBS, 17.3.1993.

[38] Brian Jay Jones, ob. cit., p. 241.

[39] Trata-se do mesmo local em que havia estreado, em 1973, Loucuras de Verão (título original: American Graffiti), filme também dirigido por George Lucas. Rodado em apenas 29 dias, o filme recebeu cinco indicações ao Oscar, incluindo a de melhor filme e de melhor diretor.

[40] Brian Jay Jones, ob. cit., p. 270.

[41] Frase do Mestre Yoda, em O Ataque dos Clones, após um jovem padawan desvendar o mistério de Kamino, o planeta desaparecido. 

[42] Referência à célebre frase de Han Solo ao descrever a Millenium Falcon no filme original de 1977: “É a nave que fez o percurso de Kessel em menos de doze parsecs.” A frase exprime talvez a maior virtude de Star Wars: o detalhamento tão específico de um mundo de fantasia que o faz soar familiar. Contém, todavia, um erro técnico: parsec é uma unidade de distância usada em trabalhos científicos de astronomia para representar distâncias estelares. Não se trata, portanto, de uma unidade de tempo, como sugere a frase de Han Solo.

Esperamos que você tenha apreciado esta análise sobre advocacia e direito em Star Wars, de Anderson Schreiber. Confira também nossos artigos sobre:

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