Um prognóstico fiscal do terceiro governo Lula

Um prognóstico fiscal do terceiro governo Lula


Nexte texto, Eduardo Muniz Cavalcanti relembra as ações do Governo Lula na busca por equilibrio fiscal em mandatos anterioes e traça um prognóstico dos próximos desafios.

Um prognóstico fiscal do terceiro governo Lula

Entra governo, sai governo, tenha o mandatário viés de esquerda ou de direita, a pauta da reforma tributária esteve à frente do debate político nas últimas décadas, sobretudo pela convergência de que somente a partir dela é possível destravar a econômica, gerar renda e emprego.

Vinte anos antes, o plano de governo do então candidato à presidência petista, já incluía a reforma tributária como um dos pilares econômicos. Logo nos primeiros meses de 2003, o próprio presidente, em ato simbólico, apresentou ao Congresso Nacional o projeto de emenda à Constituição, visando sobretudo o aumento de receita para fazer frente ao risco fiscal e à manutenção da estabilização da moeda, à época, as maiores preocupações do mercado.

Lula encontrará um governo com tendência a desequilíbrio fiscal e a sociedade e o Congresso divididos

PEC 41 e EC 42/2003

A PEC 41 foi então promulgada naquele mesmo ano como EC 42/2003. Mesmo sem base parlamentar suficiente, o próprio presidente envolveu-se na construção do ambiente político, como dito, ao comparecer pessoalmente no CN e, antes disso, havia costurado uma reunião com todos os governadores no Palácio do Planalto para pedir apoio e tratar da pretendida reforma tributária, enquanto, estrategicamente, oferecia o aumento do nível da partilha de receitas entre os entes subnacionais.

A emenda constitucional, neste aspecto, definiu a repartição de 25% dos recursos da Cide para estados, DF e municípios, além de prorrogar até 2007 a CPMF e a Desvinculação de Receitas da União (DRU), permitindo o gasto livre de 20% da arrecadação. Além disso, na mesma perspectiva de partilha, estabeleceu-se a possibilidade de os municípios ficarem com toda a arrecadação do ITR, de competência da União. Em 2004, ainda como decorrência do diálogo mais estreito entre o governo federal e os Estados, foi aprovada a EC 44, que, entre outras medidas, permitiu o aumento do percentual de repasse da Cide, de 25% para 29%.

PEC 285

Em 2004, apenas um ano depois, o governo encaminhou ao CN uma proposta de reforma tributária mais ampla por meio da PEC 285, com a pretensão de limitar as alíquotas do ICMS a no máximo cinco, diferenciadas por produtos, cabendo ao Senado definir as categorias de produtos correspondentes, com a participação do Confaz, enquanto disposições foram inseridas para proibir desonerações unilaterais pelos estados com o objetivo de evitar a “guerra fiscal”, além da fixação de mecanismos de operacionalização de créditos e débitos do referido imposto.

PEC 58/2007

Em 2007, a PEC 285/2004 foi declarada prejudicada ante a aprovação da PEC 58/2007, muito embora o texto constitucional tenha se limitado a avançar na partilha de receitas do imposto de renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados aos Estados e municípios via os fundos de participação.

A percepção do contexto histórico legislativo, associado à crise fiscal e a necessidade de aumentar a arrecadação, impôs ao governo federal a manutenção da CPMF e a construção de uma política de maior repartição de receitas entre os entes federados como mecanismo de criar consenso. A desejada simplificação do sistema tributário não ocorreu, embora tenha se discutido à época a criação de um imposto sobre valor agregado, IVA dual, para os Estados e municípios, por meio da fusão do ICMS com o ISS, e a unificação do PIS e da Cofins no âmbito da União.

Perspectivas para o terceito mandato do governo Lula

Os desafios atuais para o próximo mandato não são diferentes. O país enfrentará a necessidade de ampliar o eixo fiscal a partir de maior fonte de arrecadação, haja vista o risco iminente de desequilíbrio das contas com os estímulos assistenciais então ofertados, sobretudo com a intensificação no último ano da gestão Jair Bolsonaro: Auxílio-Brasil de R$ 600, vale-gás, benefícios aos caminhoneiros, taxistas, além da política de liberação de consignados aos aposentados, pensionistas e beneficiários de programas assistenciais, além do impacto arrecadatório com a diminuição temporária a zero das contribuições da Cide, do PIS e da Cofins sobre os combustíveis. Um anabolizante contra a inflação, cujo efeito colateral já vem a partir de janeiro de 2023.

Da fala do presidente eleito, por mais de uma vez, Lula não esconde a vontade de tributar as grandes fortunas: “Eu acho que chegou a hora”, embora ele mesmo reconheça a dificuldade de aprovação dessa pauta no Congresso Nacional.

Por não poder contar mais com elevação da CPMF, mecanismo então utilizado à época do primeiro mandato, nem mesmo poderia retomá-la pela rejeição social, e considerando o impacto nas contas públicas por pelo menos duas promessas de campanha: a isenção do imposto de renda até a faixa de R$ 5.000 (estima-se em R$180 bilhões ao ano), e o Auxílio-Brasil em R$ 600 (por volta de R$ 51,8 bilhões), teme-se a política fiscal que está por vir. Sem contar, a renúncia de receita por meio da prorrogação da desoneração da Cide e do PIS e da Cofins sobre os combustíveis e o gás de cozinha, em vigor durante a campanha presidencial até 31 de dezembro de 2022.

Para fazer frente às promessas de campanha, o presidente eleito já afirmou que essa conta poderia ser paga com o aumento da tributação dos mais ricos, não somente por meio da instituição do Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), mas, especialmente, com a possibilidade de criação de uma nova faixa de cobrança do imposto de renda (35%), além da temida volta da tributação sobre lucros e dividendos das empresas. A não atualização das faixas da tabela do Imposto de Renda também é um mecanismo de que mais pessoas paguem o tributo, inclusive, com os reajustes salariais, amplia-se a extensão e mais contribuintes entram na mirado Fisco.

Há ainda os fatores que pressionam no plano estadual. Os governadores precisam consolidar a manutenção de receita aos entes federados e estão especialmente afetados com a limitação da alíquota do ICMS sobre energia e combustíveis, o que pode sugerir que produtos considerados supérfluos tenham elevação da carga tributária, ainda que por meio do permissivo de adicional do fundo de combate à pobreza.

O cenário atual para Lula é bem diferente do encontrado à época de 2002, ao se eleger presidente pela primeira vez, pois encontrará um governo com tendência de desequilíbrio das contas públicas, inúmeros benefícios sociais momentâneos, a sociedade civil e o Congresso Nacional divididos e a necessidade de pacificar o país visando a retomada do crescimento sustentável.

Fonte: Valor

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