No último dia 17 de setembro, Jerry Greenfield, um dos criadores da famosa marca de sorvetes Ben & Jerry’s, publicou no X uma declaração explicando as razões de uma das decisões mais dolorosas da sua vida: sua saída da companhia, onde exercia o cargo remunerado de embaixador da marca, após 47 anos[1].
Segundo Jerry, apesar de continuar amando a companhia e os que nela trabalham, a empresa, após ter sido vendida para a Unilever, havia perdido o que tinha de mais precioso: a autonomia para buscar seus próprios valores, embora isso tivesse sido assegurado pela Unilever no processo de aquisição.
Com efeito, a história da companhia é marcada pelo seu ativismo social e ambiental e pela defesa de direitos civis e de voto, especialmente das minorias. Daí por que, na sua declaração pública[2], Jerry reconhece que, mesmo após a aquisição pela Unilever, a Ben & Jerry’s teria, por mais de vinte anos, se mantido firme e ativa na defesa da paz, da justiça e dos direitos humanos, procurando concretizá-los diante dos eventos reais do mundo.
Entretanto, a referida independência, segundo Jerry, teria acabado na atualidade, em um momento especialmente crítico, em que os Estados Unidos passam por inúmeros ataques aos direitos civis, aos direitos de voto e aos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQIA+.
Jerry finaliza a sua declaração dizendo que o propósito da companhia nunca foi apenas produzir e vender sorvetes, mas também espraiar amor e convidar as pessoas a lutar por justiça e equidade. Daí por que o silenciamento da companhia seria tão grave.
Vale ressaltar que as relações entre os antigos donos da Ben & Jerry’s e a Unilever já estão desgastadas há um certo tempo[3]. Em 2021, a empresa disse que ia parar de vender sorvetes nos assentamentos israelenses na Cisjordânia, sob o fundamento de que isso seria incompatível com os valores de uma marca socialmente consciente, o que provocou forte reação de Israel e parece ter contrariado a Unilever[4]. Em janeiro de 2025, a companhia alegou que a Unilever unilateralmente impediu publicação que fazia referência a aborto, mudanças climáticas e saúde universal por mencionar o presidente Trump[5].
Além dos desconfortos e desgastes, essa dissonância acabou sendo judicializada em mais de uma oportunidade. No final de 2024, a Ben & Jerry’s entrou com uma ação judicial contra a Unilever, sob o fundamento de que a sua controladora estaria censurando suas declarações públicas de apoio a refugiados palestinos e às resoluções para encerrar a ajuda militar a Israel[6]. Em março de 2025, a companhia ingressou com nova ação contra a Unilever, sob o fundamento de que a demissão do seu CEO, em razão de seus pronunciamentos progressistas e do seu ativismo político, violaria o acordo de fusão[7].
É esse o quadro que nos propicia uma amostra de vários dos desafios a serem enfrentados pelo chamado capitalismo de propósito, ou seja, o engajamento voluntário de empresas na busca de outros fins e interesses que não apenas o lucro.
Os desafios do capitalismo de propósito no caso Ben & Jerry’s
Como já tive oportunidade de sustentar em minha tese de doutorado, hoje transformada em livro[8], não vejo problema, nem à luz do direito societário brasileiro nem à luz do direito societário estadunidense, que companhias possam assumir voluntariamente outras responsabilidades e propósitos que não apenas o atendimento do interesse dos seus acionistas[9].
É o que eu chamo de responsabilidade social voluntária, conceito que utilizo em contraste à função social da empresa, para o fim de destacar que somente esta última pode ser cogente, especialmente quando concretizada por meio de regras legais obrigatórias.
Desde que mediante a observância de alguns cuidados, tais como a a plena transparência dos propósitos e iniciativas buscados pela companhia, tanto perante consumidores como perante investidores, e desde que tais propósitos sejam compatíveis com o objetivo fundamental da manutenção da lucratividade da empresa a longo prazo, seria perfeitamente possível a responsabilidade social voluntária das empresas.
Tal posição é hoje respaldada por inúmeras iniciativas recentes, muitas das quais já tive oportunidade de abordar em colunas anteriores, tais como as mudanças do Roundtable e do Fórum Econômico Mundial sobre os propósitos das companhias, todas no sentido de que preocupações sociais e ambientais, longe de serem contraditórias com a finalidade essencial das companhias, são com elas compatíveis e, portanto, devem ser incentivadas e protegidas[10].
Logo, não apenas a postura histórica da Ben & Jerry’s seria justificável, como também seria justificável que, por meio do acordo de fusão negociado com a Unilever, tais aspectos da gestão empresarial fossem observados pela futura controladora.
Mais delicado é o problema da liberdade de expressão das companhias e o seu engajamento no discurso público, notadamente porque isso somente pode acontecer por meio daqueles que, como os seus administradores, podem falar em seu nome. Isso porque a chamada responsabilidade social voluntária ou capitalismo de propósito não se traduz apenas em ações, mas também em falas e discursos. Nesse sentido, o episódio ilustra muito bem o desconforto da Unilever com o engajamento político do CEO da Ben & Jerry’s, o que acabou levando à sua demissão.
Ocorre que, na atualidade, nem sempre fica clara a distinção entre as posições pessoais e as posições institucionais de um CEO, problema a que se soma o fato de que a facilidade e a instantaneidade das comunicações na atualidade podem incentivar manifestações sem a devida reflexão.
Trata-se, sem dúvida, de tema espinhoso, especialmente quando CEOs resolvem se pronunciar sobre temas complexos e atuais, ainda mais quando alheios à atividade empresarial. Não é sem razão que a The Economist dedicou uma de suas edições para tratar do problema do political CEO, mostrando que, apesar de não se poder negar a importância do posicionamento das companhias a respeito de assuntos fundamentais para a sociedade, há inúmeros riscos de excessos e partidarismos que podem comprometer a reputação da própria companhia e, consequentemente, a própria atividade empresarial[11].
Dessa maneira, saber se a demissão do CEO da Ben & Jerry’s foi adequada ou não, mesmo pelo crivo do capitalismo de propósito, exige o exame de uma série de variáveis, ainda que não houvesse regras expressas no acordo de fusão.
Este, aliás, é outro dos importantes tópicos da discussão, que igualmente evidencia o papel e a importância de acordos de fusão na manutenção dos propósitos originais da companhia adquirida. Daí por que uma das razões da disputa entre os antigos proprietários e a atual controladora Unilever diz respeito precisamente à observância dos propósitos e compromissos assumidos na aquisição.
Por mais que se trate de acordos confidenciais, a imprensa noticiou que o processo de compra da Ben & Jerry’s pela Unilever envolveu um acordo detalhado para que a companhia resguardasse o seu direito de se manifestar sobre temas relevantes, o que incluía a criação de um conselho independentemente para supervisionar a sua missão social[12]. Em parte, é essa a razão pela qual Jerry e Ben já manifestaram a sua intenção de recomprar a marca, embora a Unilever tenha dito que não intenção nesse negócio[13].
Logo, o caso sob exame ainda requer a análise aprofundada dos limites contratuais e institucionais de manifestação dos CEOs, a partir dos compromissos assumidos no acordo de fusão, assim como dos devidos limites e controles.
O que importa observar de todo esse cenário é que, tal como constou da declaração pública de Jerry ao se desligar da companhia, a discussão vai realmente muito além da produção e venda de sorvetes. Trata-se de exemplo marcante que evidencia as tensões entre um capitalismo de propósito e um capitalismo mais “tradicional” – aquele que supostamente é mais afinado com o perfil da controladora Unilever – para as quais as soluções não são fáceis.
Resta aguardamos o desfecho da disputa, assim como dos processos judiciais já movidos. Mais uma vez, caberá ao Poder Judiciário estadunidense definir, do ponto de vista prático e operacional, quais são as consequências exigíveis do chamado capitalismo de propósito.
[8] FRAZÃO, Ana. Função Social da Empresa. Repercussões sobre a Responsabilidade Civil de Controladores e Administradores de S/As. Rio de Janeiro: Renovar, 2011.
[9] FRAZÃO, Ana. Função Social da Empresa. Repercussões sobre a Responsabilidade Civil de Controladores e Administradores de S/As. Rio de Janeiro: Renovar, 2011.
Usamos cookies em nosso site para fornecer uma experiência mais relevante, lembrando suas preferências e visitas. Ao clicar em “Permitir todos”, você concorda com o uso de TODOS os cookies. No entanto, você pode visitar "Configurações de cookies" para fornecer um consentimento controlado.
Os cookies Essenciais são absolutamente necessários para o funcionamento adequado do site. Esses cookies garantem funcionalidades básicas e recursos de segurança do site, de forma anônima.
Preferences
The technical storage or access is necessary for the legitimate purpose of storing preferences that are not requested by the subscriber or user.
Google Analytics
É um conjunto de cookies usado para coletar informações do site e reportar as estatísticas de utilização para o Google, sem identificação pessoal dos usuários.Cookies analíticos são usados para entender como os visitantes interagem com o site. Esses cookies ajudam a fornecer informações sobre as métricas do número de visitantes, taxa de rejeição, origem do tráfego, etc.
Marketing
Os cookies de Marketing são usados para fornecer aos visitantes anúncios e campanhas de marketing relevantes. Esses cookies rastreiam visitantes em sites e coletam informações para fornecer anúncios personalizados.