Regina Bilac Pinto foi, antes de tudo, uma dama.
Sempre elegante, magra, bonita e sorridente, trabalhava todos os dias em seu escritório na Av. Erasmo Braga, sede da Editora Forense.
A sede da editora fora adquirida, pois ficava próxima ao Congresso Nacional, Rio de Janeiro, capital da República.
Seu pai, Bilac Pinto, era deputado federal pela UDN e aliava o trabalho de editor com a ação política.
As peripécias de Juscelino Kubitschek levaram para Brasília a capital, mas não o charme. Grandes autores, de todos os cantos do Brasil, vinham ao Rio procurar editores.
O pai, ainda que resistente à atuação de Regina e da irmã, Beatriz, permitiu que elas começassem em áreas diversas do Direito. Foi criada à época a Forense Universitária.
Fizeram convênio com a embaixada norte-americana e, assim, foram realizadas várias e excelentes traduções. Entre as obras publicadas, a Forense Universitária publicou pela primeira vez no país, a filósofa Hannah Arendt, com seu clássico A Condição Humana.
Com a morte do pai em 1985, Regina assumiu definitivamente a proa dos negócios.
Seu charme, aliado à maneira acolhedora de receber, dava resultados. Os autores, que antes precisavam esperar para ser atendidos, nem sempre por pessoas muito simpáticas, passaram a ter respeito e amizade por ela, pois Regina portava o dom de encantar e agradar.
Adorava uma conversa. Sempre estava pelos restaurantes do Centro, na hora do almoço, com autores e amigos. Sem eles, fazia regime para manter a forma.
Editou grandes juristas brasileiros: Nelson Hungria, Heleno Cláudio Fragoso, Seabra Fagundes, Victor Nunes Leal, San Tiago Dantas, José Carlos Barbosa Moreira, Moreira Alves, Aliomar Baleeiro, Caio Mario da Silva Pereira, Orlando Gomes, Paulo Nader, Humberto Theodor Júnior, Luiz Fux, bem como dezenas de grandes autores que ainda permanecem na Editora.
Enfrentou diversas crises econômicas e crises do mercado editorial, sobretudo nas décadas de 1980 e 1990, com o espargimento da cópia xerox pelas universidades brasileiras.
Com o advento da internet e o avanço da telefonia, espalharam-se pelo mercado os formatos digitais.
Contudo, ameaças nunca a demoveram de prosseguir.
Sabiamente, soube a hora de se transformar e, em 2007, juntamente com as famílias Lorch e Breitman, fundou o Grupo Editorial Nacional, no qual passou a integrar o Conselho de Administração. Com a força de famílias de editores históricos e competentes, o Grupo comprou e/ou uniu-se a mais de 14 editoras brasileiras na área técnico-científica, formando um complexo que edita Direito, Ciências da Saúde, Ciências Humanas e Ciências Exatas e é, atualmente, um dos grandes grupos editoriais brasileiros.
No momento certo, recolheu-se, deixou o Conselho e uniu-se aos filhos, netos e bisnetos para contar histórias e entreter os amigos com longos almoços em sua casa em Botafogo.
Na qualidade de mulher, nas décadas de 1960 e 1970, Regina teve atuação indômita ao ocupar o lugar de uma das primeiras mulheres editoras que contribuiu com o crescimento do Sindicato Nacional do Editores e com a criação da Feira Internacional do Livro, hoje Bienal do Livro do Rio de Janeiro.
Não é só o exemplo de uma mulher à frente de sua época, mas, mais do que isso, é o exemplo de que o charme, a boa educação e a determinação fazem a diferença em qualquer negócio.
Regina nos deixou no último dia 7 de outubro, a cinco dias de completar 91 anos.
Deixou histórias, amigos, sócios e familiares que sentem sua falta, além de um legado de maestria e simpatia nas relações de negócios.
Com certeza, deixará muitas saudades!
